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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

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Trânsito - As mortes em acidentes de trânsito no olhar e na dor dos pais

Por Márcia Pontes Educadora de Trânsito
(Clique nas imagens para ampliar e clique em continuar lendo para ler a matéria na íntegra)

Imagem: Reprodução
O ano novo mal chegou e em suas primeiras semanas já está se mostrando um ano violento para o trânsito no Vale do Itajaí. A impressão que se tem é que a violência está sem controle, desmedida, exagerada, e que fazia tempo que não se começava um janeiro com tantos acidentes e mortes no trânsito. Com um detalhe: os mais jovens estão morrendo cada vez mais cedo. Cedo demais! 

Lamentamos pelas vidas que se vão, mas e a dor de quem fica? A dor do pai, da mãe, de quem é "pãe" (pai e mãe ao mesmo tempo) e se sente destroçado, estraçalhado, destruído por uma dor que de tanto que dói não se sabe se é na alma ou se é física. 

De todo o meu coração e com os mais profundos sentimentos às vítimas e suas famílias, como ser humano e como profissional que assumiu o compromisso existencial com a segurança no trânsito, eu não tenho como expressar a dor dos pais dos 3 jovens, garotos, meninos que perderam a vida de forma violenta num acidente em Gaspar
A dor dos pais do Lucas, de apenas 16 anos, que estava no banco de trás. A dor dos pais do Cleverson, 19 anos, o jovem motorista, tampouco a dor dos pais do Tiago, 18 anos, que estava no banco da frente. 

Era por volta de 2h da madrugada quando o carro em que eles estavam colidiu contra um Palio, bateu na mureta de proteção e precipitou-se no ribeirão. Chovia muito nessa hora, a correnteza era forte e muito entulho era arrastado para o Rio Itajaí-Açu.  

Imagem: Jaime Batista da Silva
Se eles estavam sem cinto de segurança ou se foram arrastados após desafivelarem o cinto é uma resposta que se foi junto com eles. O corpo de Lucas só não foi arrastado pela correnteza porque ficou preso às ferragens. O que se sabe é que estavam numa festinha e saíram para comprar mais bebidas. Mas, o que resta agora é a dor dos pais, acima de qualquer outra dor. 

A mesma dor de todo pai, de toda mãe que se despede do filho que vai sair de carro, que lhe dá um beijo ou que apenas pede que tenha cuidado enquanto vê, sem saber, pela última vez o filho vivo e fica se admirando como ele cresceu! Como ele está lindo!
 
A mesma dor de um pai, de uma mãe, que é acordado às pressas, de supetão na madrugada por uma ligação das equipes de resgate avisando que aconteceu o pior.  

Recentemente, um casal de amigos instrutores de trânsito perdeu o seu caçula de 26 anos, também instrutor de trânsito. A gente apoia, a gente abraça, a gente chora junto, a gente pratica toda solidariedade que a nossa humanidade nos permite nessa hora, mas jamais poderemos mensurar 1% da dor de perder um filho ainda tão jovem assim

Quem é pai, quem é mãe, quem sabe, depois de ler este artigo abrace forte o seu filho e diga: “Deus me livre de uma dor dessas!”. Ou, quem sabe, apenas ignore. 

O fato é que estamos assistindo o tempo todo a tantas mortes de condutores e passageiros cada vez mais jovens e com tanta frequência que o temor maior é que isso nem choque mais, nem comova mais as pessoas. 

Imagem: Reprodução
Meu medo é que a violência e as mortes nos acidentes de trânsito nos roubem a capacidade de nos sensibilizarmos com a dor e o sofrimento do outro, até porque o trânsito não poupa ninguém. Até porque não temos garantia de nada e não sabemos quem será a próxima vítima. Não se sabe se o próximo será o nosso filho, o filho do vizinho, de um colega de trabalho ou mesmo aquele cujo filho nem nasceu e ele ainda é o filho.

A única certeza que temos é que essa é uma dor que ninguém pensa que vai sentir um dia, até que sente. 

Há quem diga que dá uma sensação de impotência, de desamparo, de abandono. Há quem diga que o chão se abre nessa hora, mas desgraçadamente não nos engole para acabar com aquela culpa de não termos conseguido fazer nada pelo próprio filho. De não conseguir protegê-lo. 

Dizem que todo homem e que toda mulher muda por completo depois que o filho nasce. Mas, o que sabemos é que eles mudam muito mais depois que perdem um filho num acidente de trânsito. 

Historicamente, são sempre os mais jovens e com menos tempo de habilitação os que mais se envolvem em acidentes com mortes, mas isso parece entrar por um ouvido e sair pelo outro. 

Enquanto as vias públicas vão virando campos de extermínio, fico pensando nos diferentes tipos de pais e de filhos e como eles lidam com a questão da primeira habilitação; de aprender a dirigir antes do tempo; com a decisão de emprestar ou presentear o filho com um carro porque fez 18 anos, porque passou no vestibular... mas, acima de tudo, como eles orientam e constroem limites na vida e no volante com os seus filhos. 

Imagem: Jornal de Santa Catarina
Penso nas dificuldades que muitos pais tem para educar nesses tempos de permissividade exagerada em que mal se completa 18 anos e já se ganha um carro. Muitas vezes, antes de iniciar o processo de habilitação. 

Tempos em que os pais trabalham demais e tem cada vez menos tempo para conversarem com seus filhos. Tempos bem diferentes daqueles em que a juventude transviada do passado matava e morria menos.

Enfim... lamentar e contar os mortos com pouca idade em acidentes de trânsito é muito pouco. Nós, os pais e a sociedade, estamos pagando um preço muito caro

Uma pergunta para a qual urgentemente temos de buscar respostas: o que cada um de nós pode fazer para evitar essas mortes prematuras no trânsito?

Este artigo é dedicado aos meus amigos Fernando Diniz, Odete e Luis Carlos. Aos pais do Lucas, do Cleverson, do Tiago e à todos os pais que ficaram órfãos de seus filhos em acidentes de trânsito.

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