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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

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Trânsito - Blumenau precisa evoluir em relação à bicicleta

Por Márcia Pontes

As palavras, essa semana, do representante de algumas lojas do comércio varejista de Blumenau – SINDILOJAS - a respeito da iniciativa da prefeitura em ampliar as ciclofaixas em várias ruas da cidade, somado à opinião de muitos motoristas e às pérolas de um empresário brusquense no sentido de que as bicicletas atrapalham o trânsito alertam: Blumenau precisa evoluir em relação à bicicleta. 

Foto: Reprodução
Não só em relação à bicicleta, mas em relação à mobilidade humana, à preservação da vida no trânsito e ao fato das cidades serem feitas para as pessoas e não para os carros. Lembrando que as bicicletas fazem parte da própria identidade histórica de Blumenau.

O argumento de que instalar uma malha cicloviária na cidade pode ser um problema, contraria o que diz qualquer literatura mundial em mobilidade urbana e a própria realidade de que o verdadeiro problema é o uso que as pessoas fazem de seus veículos e que acaba entupindo as ruas de carros. Bicicleta não é problema, é solução, mas parece que a sociedade se recusa a entender isso.

A reclamação de que para instalar as ciclovias não se consulta os comerciantes diretamente atingidos pela medida é justa. Realmente, entendo que deveriam consultar sim, até para orientar sobre a oferta de estacionamento seguro para os ciclistas e como estratégia de fidelização desses consumidores sobre duas rodas.
Só não entendi o argumento de que as lojas estão estabelecidas há anos em seus pontos e que as ciclovias e ciclofaixas vão afetar negativamente os negócios, já que a mesma Constituição que assegura o direito à propriedade é aquela que assegura a função social da propriedade. E não existe nada mais social do que a função de um comércio que abre suas portas para atender as pessoas, o que faz crer que os interesses coletivos estejam acima dos interesses privados.
Foto: Jaime Batista da Silva
Emprestando para este caso as palavras do ciclista Mauro Schramm, espaço público não é anexo comercial de ninguém e não deveria importar o modo como as pessoas chegam ao seu comércio para consumir.  Ou o ciclista também não é consumidor?
O representante dos lojistas implicitamente se refere aos ciclistas como “grupos minoritários, mas barulhentos, que fazem valer suas posições.” Sinceramente, não acredito que os ciclistas sejam minoria em Blumenau porque há mais pedestres do que motoristas e quem pedala representa muitos desses pedestres.
Já se parou para pensar quantas pessoas vão para o trabalho diariamente de bicicleta, inclusive pedalando longos percursos? Basta dar uma olhadinha nos estacionamentos das principais empresas em todas as áreas da cidade para se espantar com a quantidade de bicicletas estacionadas em seus pátios.
Em Blumenau já temos um serviço de entrega de encomendas feita só por ciclistas, os carteiros trabalham de bicicleta, os guardas de trânsito trabalham de bicicleta, os entregadores de pequenos mercados nos bairros fazem entregas de bicicleta. Muitas crianças vão e voltam da escola de bicicleta.

Foto: Jaime Batista da Silva
E mesmo que as ciclovias sejam utilizadas para o lazer (e não são só para isso) e não para a locomoção da comunidade como disse o representante de alguns dos comerciantes, uma das maiores necessidades para a qualidade de vida da população é o lazer porque a cidade deve ser feita para as pessoas e não para os carros.
Não se trata de primeiro construir ciclovias para que Blumenau tenha a adesão dos ciclistas, mesmo porque temos 65% de leitores de um jornal local que já disseram que deixariam o carro em casa para pedalar se tivesse condições mínimas de segurança. Isso mostra que a adesão já existe, mas as pessoas só não pedalam mais por falta de ciclovias e ciclofaixas. 
Quanto à sugestão de liberar as ciclovias para o lazer das 20h às 5h durante a semana, eu pergunto: quem é que depois de trabalhar um dia inteiro vai pedalar de madrugada por lazer numa cidade cada vez mais insegura e com tantos assaltos e aumento da criminalidade? Não seria empurrar as pessoas para uma situação de risco extremo? Não é essa a proposta de lazer que as pessoas precisam.
O direito ao lazer, à mobilidade, à segurança, - e isso também inclui o direito a um trânsito seguro -, são direitos constitucionais e necessários à qualidade de vida em tempo integral, não só de madrugada ou aos finais de semana como o representante dos comerciantes sugere. E tal sugestão está longe de ser uma medida proveitosa e inteligente para toda a comunidade.
Foto: Bicicletas do Vale
A ONU reconhece a importância da bicicleta para o desenvolvimento sustentável e espera que seu uso continue crescendo nas cidades, superando a utilização para pequenos trajetos. 

 No Brasil, temos editado há 5 anos o Caderno de referência para elaboração de plano de mobilidade por bicicleta nas cidades e a Lei 12.587, que normatiza a Política Nacional de Mobilidade Urbana. O Plano de Mobilidade por Bicicleta orienta para o planejamento da circulação cicloviária, fornece elementos para a elaboração de projetos cicloviários e aborda a importância de integrar as bicicletas a modos coletivos de transporte, sobretudo para permitir deslocamentos maiores. 

Mesmo uma cidade com relevo que não ajuda muito, com muitos morros e subidas, é possível utilizar a bicicleta para alternar o uso do carro em situações específicas

Mas, o problema não me parece ser só esse, mas uma questão de mentalidade, de rever os conceitos e a forma de pensar em relação ao uso do carro e da bicicleta, porque as pessoas se recusam a acreditar num colapso do trânsito que já vem sendo anunciado há muito tempo. 
Foto: Bicicletas do Vale

Por outro lado, não adianta valorizar a bicicleta só como peça decorativa em época de Oktoberfest, para emendar uma na outra, encher de florzinhas e pedalar alguns metros no desfile. Trata-se de pensar a bicicleta como ferramenta para a mobilidade sustentável, para o lazer, para a melhoria da qualidade de vida das pessoas nas cidades. 

Segundo os dados levantados pela consultoria Tendências, estima-se que em 2012 foram vendidas quase 5 milhões de bicicletas no Brasil, somando-se a uma frota estimada em mais de 60 milhões de bikes. A ideia da bicicleta pode ser antipática para quem cultua o carro, mas sua utilização supera a ideia de que seja utilizada só como transporte alternativo para pequenos trajetos. 

Foto: Bicicletas do Vale
Em Blumenau muita gente se orgulha de tudo que diz respeito à Alemanha e esse é o sentimento mais lindo que já vi num povo: o respeito aos antepassados, à herança cultural, à própria história

Porquê então, não se orgulhar de outras coisas boas da Alemanha como o plano de mobilidade urbana que prioriza o uso de bicicletas com seus mil quilômetros de ciclovias em que o uso da bike já supera o de carros? 

Uma mente que se abre para novas ideias jamais retorna ao seu tamanho normal. Então, vamos evoluir, Blumenau!

7 comentários:

  1. Olá Márcia, tens que enxugar este texto (máximo 1800 caracteres contando espaços) e publicá-lo nos artigos do Jornal de Santa Catarina (leitor@santa.com.br) com nome, profissão, endereço, CPF e RG.

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  2. Olá Márcia!
    Sou lojista, Óptica Alexandre, temos local coberto e seguro para estacionar a bicicleta e ainda oferecemos 5% de desconto aos ciclistas em suas compras.
    Como ferrenho defensor do associativismo, eu era associado do Sindilojas, disse era.
    Depois daquela declaração torta, fui obrigado a me desligar da entidade, já que sua posição não me representa.
    Acredito que muitos outros lojistas pensam e agem como a Óptica Alexandre e não podem pactuar com entidades que atuam na contramão da evolução.
    Por isso peço aos empresários do comércio que, assim como eu, sentiram-se incomodados, tomem uma atitude séria e firme de acordo com suas convicções.

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    1. Alexandre Leschinski, muito obrigada pelo comentário e parabéns pela atitude de reter e fidelizar os seus clientes. Todos os seus clientes. E, muito mais, pela leitura realista da mobilidade urbana. Grande abraço. Márcia.

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  3. bom texto, acredito que esse problema da supervalorização dos carros às pessoas é cultural, já vem de berço na mente do brasileiro... há tempos o carro deixou de se tratar de uma ferramenta de mobilidade para ser um simbolo master de consumo e status... e mudar uma cultura é algo dispendioso, leva tempo, quem sabe gerações... É lamentável que ainda tenhamos que ouvir comentários desconexos com a realidade como esse feito pelo sr. pres do Sindilojas, esse pensamento ilustra bem a visão (errônea) da sociedade para com as novas alternativas de mobilidade urbana

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  4. Ótimo texto Márcia. Mudar hábitos é algo que necessita de persistência e tempo. É totalmente possível mudar a mentalidade em relação à mobilidade urbana. Continue com seu ótimo trabalho.

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    1. Obrigada, Fabiano Uesler. Como educadora de trânsito luto para que a sociedade compreenda que o trânsito é um espaço compartilhado, que todos tem direito à via e à vida no trânsito e que se não começarmos a pensar em sustentabilidade agora (e já estamos atrasados) o colapso anunciado logo empaca tudo de vez. Minha luta é pela vida no trânsito e pela mobilidade, uma cidade feita para as pessoas. Abraços. Márcia.

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