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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

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Trânsito - O trânsito não poupa ninguém

Por Márcia Pontes Educadora de Trânsito
(Clique nas imagens para ampliar e clique em continuar lendo para ler a matéria na íntegra)

Um dia depois da charge publicada na mídia em que duas aranhas conversavam e uma dizia à outra que estava sumida porque tinha mudado para dentro das máquinas que trabalhavam na BR-470, mais um acidente grave. Estamos na primeira semana de 2014 e esta é a terceira morte na rodovia, no mesmo trecho que ano passado vitimou 90 pessoas. Desde 2000 foram 1.471 mortes.

Imagem: Reprodução
Dessa vez, alguém nem tão anônimo: o irmão do prefeito Napoleão Bernardes, Caio Vinicius, 37 anos. Ele colidiu de frente com uma carreta que vinha em sentido contrário e no choque foi arremessado para fora do veículo. 
 Mas, ele não era só o irmão do prefeito de Blumenau. Caio era administrador, deixa o filho de 8 anos e a esposa, que ele tinha ido recepcionar cheio de saudade no aeroporto de Navegantes. Caio era pai, era marido, era filho, era irmão e agora, mais uma vida que se foi no trânsito.

Caio era mais um condutor dentre milhões que dirigem pela saturada BR-470, principal rodovia que escoa algo em torno de 40% da produção do Vale do Itajaí e municípios vizinhos e não comporta mais tanto tráfego. Tragicamente, agora ele entrou para as mesmas estatísticas que alertam que 5 pessoas morrem por hora no Brasil em acidentes de trânsito.

Imagem: Reprodução
No ano passado, a notícia da duplicação da BR-470 foi muito festejada por todos: movimentou a mídia, encheu de esperança a sociedade, e como para muitos políticos qualquer pé de galinha é uma janta, imaginem o orgulho daqueles sorridentes posando para as fotos e se dizendo ser também um pouco o pai da criança.

Mas, como em outras épocas, de novo vimos o fogo de palha se apagando. As primeiras máquinas que roncavam às margens da rodovia silenciaram. As famílias que moram próximas nem se preocupam mais tanto com as marcações em suas casas e propriedades anunciando que em breve teriam de sair dali para a rodovia ser duplicada.

A ordem de serviço dos lotes 2 e 4, entre Gaspar e Indaial, outro trecho perigosíssimo e que já ceifou muitas vidas, já foi assinada, mas as obras continuam sem prazo para começar. O trecho 1, entre Navegantes e Ilhota, ficou na mesma e nem a ordem de serviço foi assinada.

Tudo está parado há quase 6 meses e a promessa de que a ordem de serviço seria assinada em 31 de dezembro não se cumpriu. Sumiram os políticos que se diziam um pouco os pais da criança e aqueles que ofereceram a duplicação da BR-470 como um presente para o Vale e suas famílias.

Só não sumiu, só não passou a dor de quem perdeu seus entes queridos em acidentes de trânsito naquela que já foi batizada como a “rodovia da morte”.  

Imagem: Reprodução

Costumam-se ouvir duas coisas que já se tornaram clichê no que se refere às mortes violentas em acidentes de trânsito, sobretudo como este que tirou a vida do irmão do prefeito Napoleão Bernardes. A primeira, é de que a rodovia não mata ninguém, quem mata são os motoristas que por nela trafegam. E, neste ponto, tem muita gente que não concorda que a BR-470 seja referida como a “rodovia da morte”.

O fato é que embora as rodovias não matem ninguém, as condições da via são apenas um dos 3 fatores determinantes para os acidentes de trânsito: o homem, a via e o veículo. Bons motoristas com bons comportamentos em vias inadequadas e saturadas também morrem.

O outro clichê, tão doloroso de mencionar num momento tão delicado como este (e me desculpo pelo mal necessário), é de que precisa morrer alguém da família de algum político para que se comece a fazer alguma coisa, a acelerar o que precisa ser feito.

Na verdade, não deveria ter de morrer ninguém primeiro para que se começasse a acelerar alguma obra em qualquer via pública que seja. Não deveria morrer o filho de ninguém, o pai de ninguém, o amor da vida de ninguém para que uma rodovia fosse duplicada.

O trânsito não poupa ninguém e já passou da hora da sociedade organizada em todos os setores começar a se mexer. Não podemos esperar e nem deixar que mais pessoas morram para que a duplicação da BR-470 saia do papel e do discurso inflamado dos políticos.

A perda de vidas humanas não deve ser expectativa ou garantia de nada. Não interessa se é o “seu João”, a Dona Maria ou o irmão do prefeito, do deputado ou do governador. Estamos falando de pessoas, de vidas que estão indo embora cedo demais, de forma violenta demais e isso será sempre um preço alto demais para todos nós.

Meus sentimentos em memória e em respeito à todas as vítimas de acidentes de trânsito e suas famílias, sobretudo ao prefeito Napoleão Bernardes, que sentiu pela segunda vez a dor insuportável de perder familiares em acidente de trânsito. Seu pai, o jurista Acácio Bernardes, morreu num acidente de trânsito em 1996 na BR-101. É dor demais, é sofrimento demais para as vítimas e as famílias.  

Deus nos conforte à todos e nos dê forças para seguir em frente e transformar o luto em luta por um trânsito mais humano e seguro.

“Dói de tanto medir a distância saber que não vou te tocar além da lembrança” (Beto Guedes).
 

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