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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

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História - Papai Noel existe?

Por Urda Alice Klueger / Arquivo de Adalberto Day
(Clique nas imagens para ampliar e clique em continuar lendo para ler a matéria na íntegra) 


 Em 1960, eu havia entrada para a escola, a maravilhosa escola que abrir-me-ia as portas para o grande mundo que havia nos livros e, onde, coleguinhas mais sabidos do que eu, ensinaram-me que Papai Noel não existia. Eu encarei com força aquele desvendar de uma nova verdade e, conforme o Natal se aproximava, ficava em casa repetindo impertinentemente:
Imagem: Reprodução
- Papai Noel não existe! Papai Noel não existe!
Minha irmã Margaret, então, tinha quatro anos, e é claro que minha mãe queria que ela continuasse a acreditar em Papai Noel. Quando eu começava com aquela cantilena boba, minha mãe pedia para que eu parasse, e depois implorava, e depois me ameaçava, mas eu não dava um passo atrás na reafirmação da nova verdade que descobria: Papai Noel não existia, e eu queria que todos soubessem que eu sabia disso.
Meu pai e minha mãe, com certeza, estavam bem de saco cheio comigo e aprontaram a sua cena de Natal.
Imagem: Reprodução
 Na noite de Natal, noite em que nós costumávamos achar muitos chocolates e presentes sob a árvore, jantamos com toda aquela ansiedade que as crianças têm na Noite de Natal, ansiosas por chegar a hora das surpresas. Depois do jantar, minha mãe lavou a louça com toda a calma, como em qualquer dia comum.
Depois, abriu as latas de doces-de-Natal e encheu alguns pratos com eles. Com mais calma ainda, levou os doces para baixo da árvore-de-Natal e os colocou lá, enquanto meu pai acendia as velas do pinheirinho. Ai sentaram-se a conversar, como em qualquer dia comum, e nesse ponto eu já estava explodindo. Minha ansiedade era tão grande que não resisti:
- E o Natal?
- Ora, nós estamos festejando o Natal! A árvore já está acesa, já temos os doces que fizemos...
- E os chocolates? E os presentes?
- Ah! Isto são coisa que o Papai Noel traz! Como Papai Noel não existe, como é que ele vai trazer tais coisas?
Imagem: Reprodução
 Se alguma vez senti frustração na vida, foi naquele momento. Onde estava o meu Natal? Onde estava o encanto dos pralinés recheados de rum, e as bonecas e os lápis-de-cor novos, e as garrafas de frisantes que se tomavam naquela noite? Onde estava a magia dos Natais anteriores? Onde estava aquela ânsia na alma, que nos outros anos havia me preenchido de alegria? Intensamente frustrada, eu creio que já estava a ponto de chorar, quando aconteceu o milagre: nossa casa passou a ressoar com grandes pancadas nas sua paredes de madeira, enquanto todos pulavam de susto e diziam:
Imagem: Reprodução
- É o Papai Noel! É o Papai Noel!
Meu pai apressou-se a abrir a porta e, curvado sob um grande saco, Papai Noel de verdade entrou lá em casa. Naqueles idos, Papai Noel não se vestia de vermelho, como hoje; usava uma bizarra roupa feita de sacos de estopa e, à guisa de barba, tinha a pele de algum animal pequeno, com certeza caçado pela vizinhança, preso sob o queixo. Nenhuma criança de hoje levaria à sério aquele Papai Noel, mas eu levei, meu Deus, como levei! Voltara a acreditar nele imediatamente, nem me passava mais pela cabeça a outra certeza, e quando ele nos fez as tradicionais perguntas, tipo se obedecêramos à mãe durante o ano, fui eu quem respondeu com mais convicção. Ele era um Papai Noel exigente, mandou que nos ajoelhássemos e rezássemos uma Ave Maria e um Pai Nosso, e rezei com o maior fervor da minha vida até então. Foi embora, então, deixando-nos um saco pejado de guloseimas e presentes, e lá estavam os pralinés, as bonecas, os cadernos com cheiro de novo, as caixas de lápis-de-cor com 24 lápis, os joguinhos, as loucinhas para brincar de boneca. Tudo tinha ficado lindo, toda a magia voltara e, com certeza, eu era a criança mais feliz do mundo quando meu pai me deixou beber um pouquinho de frisante. (Hoje, não existe mais frisante. Fico pensando o que era aquela bebida de gosto tão bom. Talvez, seja o que hoje chamamos de cidra.)
Até hoje eu não sei quem foi o vizinho que se vestiu de estopa naquela Natal de 1960, e trouxe para mim a alegria de volta. Só sei que, a partir daí, por muitos anos ainda eu acreditei em Papai Noel. 
Blumenau, 01 de Dezembro de 1996. 
Urda Alice Klueger 

Publicado originalmente no Blog Adalberto Day em domingo, 15 de dezembro de 2013

2 comentários:

  1. Papai Noel existe para quem tem coração sensível, que vive a história, os mitos e não é ridículo como foi citado no jornal Santa outro dia por um colunista.
    A magia da vida consiste em ser, acreditar, ter a vontade de viver e com mistico de fantasias. Fomos criado assim e é assim desde o Homem da Caverna, passando e sendo imortalizado pelos Gregos,Romanos e na realidade todas as civilizações. Pobre do historiador que deixa de contar essas histórias, estes mitos, esses personagens, sendo ou não verdadeiro. Todos vamos ter o sentido da reflexão de analisar e saber o certo e errado. Quando lecionava História, Filosofia e Sociologia, dizia aos meus queridos ginasianos e do 2º Grau: "Vim aqui para ensinar e aprender" duvidem sempre daquilo que estiver sendo ensinado, busque a reflexão, existe uma versão que pode ser diferente. Ninguém é dono da verdade absoluta. E para não ser queimado na fogueira, muitas vezes dei uma de Galileu Galilei e o sucesso estava sendo formado, o questionamento, a certeza que seu assunto iria ser divulgado. "Não... não contem para ninguém por favor eu estava ensinado errado", e adiantou? Claro que não Papai Noel existe e eu não morri na fogueira. Ho... Ho... Ho... Ho... Ho
    Parabéns ao Fabiano e a Urda pelo belo texto.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

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    1. O Papai Noel é uma figura mítica moderna que trouxe e trará por muito tempo sorrisos às crianças e em muitos adultos. Verdades absolutas não existem, mas toda alegria é absoluta em seu momento e a Urda sintetiza essa alegria em seu texto com uma clareza que só os bons textos podem ter. Os bons textos são aqueles criados pelas lembranças dos momentos felizes, das alegrias que temos em nossas vidas. Obrigado Urda e Adalbeto

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