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segunda-feira, 2 de junho de 2014

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Trânsito - O primeiro culto ecumênico às vítimas de acidentes em 163 anos



Uma noite para ficar na história: pela primeira vez, Blumenau lembrou dos mortos e sequelados em acidentes e suas famílias. E foi no Maio Amarelo. Uma noite de emoção, de respeito, de reverência, para lembrarmos com saudades e com esperança de todos que se foram e também dos sobreviventes em acidentes de trânsito e suas famílias. Assim foi a noite do dia 30 de maio, no Setor 1, da Vila Germânica e que marcou o encerramento simbólico do Movimento Internacional Maio Amarelo em Blumenau. Foi emocionante, momento de comoção mesmo que eles, familiares e vítimas, nunca mais esquecerão. E nós nunca esqueceremos deles.

Em 163 anos de história de nossa cidade nunca tivemos um momento como este, em que autoridades religiosas católicas e evangélicas ministraram mais do que um culto: levaram palavras doces, de alento, de acolhimento e aconchego às vítimas e suas famílias. Palavras de fé e de esperança para renovar as forças dos órfãos de seus entes queridos no trânsito.

Nem no terceiro domingo de cada mês, quando a ONU instituiu desde 2005 o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Acidentes de Trânsito, nós tivemos um momento assim em Blumenau. Por isso, é que, para mim, o Maio Amarelo é um sonho realizado. É por isso, que o primeiro culto ecumênico em memória às vítimas de acidentes e suas famílias é um sonho realizado que esperamos que o poder público se sensibilize em realizar daqui para a frente para que não continuemos desmemoriados da dor dessas famílias.

O culto ecumênico foi uma forma de lembrarmos dos mais de 1,3 bilhão de mortos em acidentes de trânsito em todo o mundo e das mais de 60 mil no Brasil, para além daquilo que escapa às estatísticas oficiais. Temos ainda um imenso “exército” de feridos e sequelados permanentes.

Mas, não estamos falando de estatísticas porque eles não são números: são vidas humanas que se foram pela violência, pela falta de humanidade e gentileza no trânsito. E enquanto estamos lendo este artigo, mais vidas estão sendo ceifadas em vias públicas.

As pessoas iam chegando emocionadas: algumas já vinham enxugando as lágrimas na entrada do Setor 1 e eram amparadas pelos acompanhantes ou por outros familiares de vítimas.

Dentre os sobreviventes de acidentes estava a Roselene, 48 anos, que caminhava com a ajuda da mãe, Dona Adelaide, e por voluntários da Associação Blumenauense dos Deficientes Físicos (ABLUDEF). Há 9 anos ela foi vítima de atropelamento em cima da calçada na Rua 2 de Setembro, ficou em coma por 3 anos, teve de refazer a face, passou por diversas cirurgias em outras partes do corpo e ainda não consegue caminhar sozinha.

A Roselene e Dona Adelaide chegaram tristes ao culto, mas com o andamento do ato religioso e das manifestações de uma humanidade que ainda precisamos muito, o choro passou a ser de alegria por estarem vivas. Passou a ser de agradecimento pela vida. A banda de Policiais Militares evangélicos emocionou, assim como o Coral Teen da Assembléia de Deus e o Coral de Cegos, da ACEVALI. Mas, a emoção maior, com certeza, era de estarem juntas em vida.

Com tantas dores, dificuldades, com tantos sofrimentos, a Roselene deu à todos uma das maiores lições de vida: ter sonhos. E mesmo sem mobilidade, com sequelas permanentes que jamais a farão ser como era antes, ela sorria e revelava: “eu tenho dois sonhos: morar numa casa nova mais perto dos médicos que cuidam de mim e de ter um computador e um teclado.”

Para muitos, a vida teria acabado no momento do acidente, mas para a Roselene não: a vida continua, cheia de sonhos e de descobertas, pois ela começou a pintar quadros e isso também tem feito a diferença na sua recuperação. Sonhos simples, como o de voltar a caminhar, o de voltar a falar, o sonho de ter um computador. Coisas simples que tantos têm, mas não valorizam, incluindo a própria vida.

No culto também estava presente Alynne Ribeiro, vítima e mãe do pequeno Henrique Hasse, que nos deixou tão cedo, aos 2 anos e meio. Ele foi vítima fatal de um acidente provocado por um condutor embriagado no dia 8 de junho de 2013, na Rua Bahia.

Para Alynne, mais do que um momento de emoção, de lembrar da presença e da ausência do pequeno Henrique, foi um momento de se fortalecer e renovar as esperanças: “Que cada lágrima derramada por mim, Deus transforme em forças pra lutar por essa causa... Farei de tudo para que ninguém mais passe por isso, para que ninguém sinta essa dor: a dor de perder um filho”, disse, emocionada.

Para mim, Márcia Pontes, também não foi fácil conter a emoção de lembrar dos amigos, de gente que nunca conheci ou conhecerei, mas que são o motivo de eu abrir os olhos todas as manhãs e ter como causa para viver salvar e proteger a vida das pessoas no trânsito.

Não foi fácil ter a palavra por alguns minutos para falar sobre o Maio Amarelo e lembrar de uma prima que perdeu a vida em acidente, e de meu irmão, Sérgio, hoje sequelado permanente em acidente de trânsito. A emoção tomou conta, a voz embargou e a única coisa que consegui dizer alto, firme bom tom foi que, mais do que um juramento profissional, mesmo sem conhecer as pessoas, eu levanto a cada dia e digo para mim mesma: hoje eu vou salvar uma vida no trânsito.

A causa é humanitária, a missão é o meu ar e vou fazendo o que posso como profissional liberal em segurança no trânsito e com o voluntariado.

Coordenar o Movimento Internacional Maio Amarelo no estado, para alguns, pode significar diferentes possibilidades e oportunidades. Para outros, quem sabe um momento de reconhecimento por um trabalho diário e a maior parte do tempo anônimo, que venho fazendo desde 2008.

Na verdade, para mim, como ativista da causa humanitária de salvar vidas no trânsito, representa e significa a oportunidade de chamar à responsabilidade, de mobilizar, de tirar da letargia uma sociedade inteira em processo de genocídio causado pela violência diária no trânsito.

O mês de maio acabou, mas o Maio Amarelo não. O encerramento foi simbólico porque as ações pela atenção à vida continuarão pelos 365 dias de cada ano. E eu só vou parar de lutar quando o meu coração parar de bater.

Imagens: Reprodução

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