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domingo, 30 de março de 2014

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Sociedade - País com herança maldita tende ao fracasso

Por Luiz Flávio Gomes
Jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Estou no professorLFG.com.br



Quatro são as instituições nucleares que determinam a prosperidade ou o fracasso dos países: (a) políticas (Estado/democracia), (b) econômicas (modelo de economia), (c) sociais (sociedade civil/incivil) e (d) jurídicas (respeito aos contratos e império da lei, que inclui o devido processo legal e proporcional) (Ferguson: 2013, p. 23 e ss.; Acemoglu/Robinson: 2012). Onde todas essas instituições funcionam bem (países com raízes históricas democráticas, fundados na dignidade da pessoa humana), as leis se inclinam para a sensatez e para a igualdade (equidade). Onde fracassam (países com origens colonialistas, extrativistas e classistas), as leis acabam sendo dominadas (muitas vezes) pelas castas dirigentes, em seu benefício.

Para bem entender o funcionamento das instituições, um dado relevante (mas não o único) é a história de cada país (colonialista ou não colonialista, particularmente).

Um exemplo: Nogales (Nogueiras) é dividida apenas por uma cerca: se se trata da mesma cidade, por que a parte norte, que fica no Arizona (EUA), é rica, enquanto a parte sul, que fica no México, é pobre? Por que a renda familiar média do norte é de mais de US$ 30 mil anuais, enquanto no sul não passa de US$ 10 mil? Por que no norte a grande maioria dos adolescentes estuda e a maioria dos adultos concluiu o ensino médio, enquanto no sul dá-se exatamente o contrário? Por que os habitantes do norte vivem mais que os do sul? Por que a criminalidade é bem menor no norte que no sul? Por que o regime democrático do norte é muito mais eficiente que o do sul? Por que a corrupção no norte é muito menor que no sul?

Inexistem diferenças geográficas, climáticas ou entre os tipos de doenças (os micróbios não estão impedidos de cruzar a fronteira); tampouco na capacidade das pessoas (uns netos de europeus, outros descendentes dos astecas); aliás, eles contam com a mesma cultura e ancestrais comuns. Onde está a diferença? Dentre outros fatores, na herança histórica de cada país (Acemoglu/Robinson: 2012, p. 6 e ss.).

Por que os EUA e o Reino Unido se enriqueceram (sobretudo nos séculos XIX e XX, com a Revolução Industrial) e a América Latina, por exemplo, nunca deixou de ser marcadamente pobre, ignorante, corrupta e violenta? Por que tanta diferença entre EUA e México (que é muito parecido com o Brasil em termos históricos, já que ambos foram conquistados pelos povos ibéricos)?

Sem prejuízo das críticas que podem ser feitas aos dois países prósperos citados (especialmente no que concerne às brutais desigualdades que ostentam, particularmente os EUA), não há como negar (como demonstram Acemoglu/Robinson: 2012, p. 3), que esse sucesso aconteceu “porque seus cidadãos [um dia] derrubaram as elites que controlavam o poder e criaram uma sociedade em que os direitos políticos eram distribuídos de maneira muito mais ampla, na qual o governo era responsável e tinha de responder aos cidadãos e onde a grande massa da população tinha condições de tirar vantagens das oportunidades econômicas”.

Acemoglu e Robinson (2012) afirmam que para se compreender porque há tanta desigualdade no mundo assim como entre os países temos que mergulhar no passado e estudar a dinâmica histórica de cada uma das sociedades. Alguns países contam com herança bendita, enquanto outros, com herança maldita (caso do Brasil e do México), onde funcionam muito mal as quatro instituições citadas, porque o predomínio passa a ser do capitalismo selvagem, não do capitalismo evoluído, distributivo e altamente civilizado (como na Noruega, Suécia, Suíça, Holanda, Austrália, Coreia do Sul etc.). 
 
 
Crédito das Imagens:
1ª, 2ª e 3ª Imagem: Reprodução
2ª Imagem: Cidade de Nogales

sábado, 29 de março de 2014

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História - Sem trem “13 de março” - A última viagem do trem


A última viagem do trem


No dia 13 de março de 1971 a Estrada de Ferro Santa Catarina é erradicada por decisão das autoridades federais. A população assiste entristecida e melancólica, à derradeira viagem do trem em direção ao terminal de Itajaí. O comboio ferroviário deixa atrás de si uma gama de relevantes serviços prestados ao desenvolvimento de toda a região e no coração das pessoas as lembranças de uma era cheia de poesias e encantamentos.

Passagem por Rio do Sul
Imagem: Adalberto Day

Sem Trem

Publicado no Jornal a CIDADE Ano II – Blumenau, domingo 14 de março de 1971 por Luiz Antônio Soares. (faleceu em 20/09/13 aos 72 anos).

Ouço ainda, na meditação das minhas reminiscências, com meus ouvidos de criança, aquele barulhento passar do trem, gostoso como só, amassando as nossas maldosas pedrinhas sobre os trilhos, que as vezes, por serem mais que pedrinhas, resultavam num bom raspe de mão do bigodudo maquinista.

Lembro-me bem do apito ...

Ele era longo, pontual e por causa dele, na hora da correria, muita bolinha de gude eu perdi
.
Tenho ainda na memória as marcas das varadas que levei bem aqui, pela imprudência de me aproximar – como numa gigantesca e perigosa aventura – daqueles vagões que ajudei a desbotar com meus dedos, ainda manchados de um vermelho surrado de sol. 

Blumenau
Imagem: Adalberto Day

Quem ficou verdolengo à beira dos trilhos não esquece. Não pode esquecer. O trem foi o brinquedo grande das crianças pobres.

Aquela gente toda nos abanava e nós sorríamos contes e orgulhosos quando alguém nos jogava um bombom ou um simples papel colorido.
Agora esse golpe.
Quem poderia imaginar que as crianças de amanhã não terão a a mesma sorte que eu tive?

A delicia de furtar uma voltinha de vagonete na ostensiva distração do feitor. O saltitar infantil sobre dormentes que apodreceram aos nossos pés descalços. E aquele calor afetivo quando nos deitávamos sobre o trilho, ouvindo o barulhinho distante, anunciando que o trem já vinha ...

É de não se conformar. Já se viu meu Deus, já se viu criança a beira dos trilhos, nem ver o barulhento passar do trem ???.
Oficina em 1948
Imagem: Adalberto Day

Adendo de Luiz Carlos Henkels sobre a última viagem e seus maquinistas

Enviado por Angelina Wittmann

Vamos por partes que o assunto é mais complexo: Dois maquinistas operaram o trem da última viagem. Anibal Rocha na tarde de 12 de março entre Itajaí até Itoupava Seca. Ali trocou a escala. De Itoupava Seca até Trombudo Central, na tarde de 12 de março quem levou o trem foi José Pacheco, ao qual ainda pude entrevistar em 1994.


Agora vamos à composição. O trem na última viagem não tinha mais cargas por questões óbvias. Era um trem mais pra fazer o rescaldo, recolher os vagões que ainda estavam pelas estações. A desativação da EFSC foi uma questão bem planejada Então de Itajaí a Trombudo Central, subindo, o trem tinha apenas 4 vagões tracionados pela locomotiva 331. Era composto da seguinte forma. Atrás da locomotiva um pequeno vagão pra transportar mercadorias avulsas de maior volume numerado como FB 9301. Após este vinha o bagageiro, que é aquele vagão que levava o correio, bicicleta, cachorro, lambreta, verdura, geladeira, armário, etc....e que era também a administração do trem, ou seja abrigava o reservado do chefe de trem. Este carro era o BC 101. Atrás deste vinha o carro passageiro de 2ª classe que neste dia era o S 101 e por fim o último carro que era um misto ( tinha assentos de 1ª classe e 2ª classe ) e que não me lembro qual era porque tinha dois iguais, mas, ou era o PS102 ou o PS103, mas, creio ter sido o PS 103.


Imagem: Livro Saudosa Indaial - Alfredo Nagel, Beno Pasold, Fernando Pasold.
 Ao chegar a Trombudo o trem voltou imediatamente para Itoupava Seca, conduzido pelo mesmo José Pacheco, recolhendo ainda alguns vagões ao longo das estações. Este trem passou aqui por Encano por volta de 2:00hs da manhã. Levantei para vê-lo passar. Devia ter uns 10 vagões.


No dia 13 de março que era sábado, estes vagões remanescentes foram levados até Itajaí, onde permaneceriam até o momento de serem transladados via marítima até o porto de São Francisco, onde foram incorporados à frota da RVPSC. Neste dia 13 somente a locomotiva 331 voltou para Itoupava Seca, sendo guardada no galpão principal. As locomotivas a vapor eram muito pesadas e o pessoal não queria ter o trabalho de transladar todas as 12 que tinha para São Francisco, por ser desnecessário. Jurássicas como eram, não teriam serventia na RVPSC que já operava a diesel. Assim ficaram em Itoupava até 1973 para daí serem sucateadas. 

A imagem de 1930 – Mostra a antiga estação ferroviária de Blumenau – demolida a partir de Setembro de 1974
Imagem: Adalberto Day
Nestas operações do dia 13 não se sabe o nome do maquinista. Os ferroviários davam pouca importância pra isso, afinal era só mais um trem na escala deles, apesar de ser a última escala. Interessante também colocar que o próprio José Pacheco se irritou várias vezes na última viagem para Trombudo, pois alguns filhos de ferroviários, para curtir a última viagem, foram na cabine da locomotiva e sucessivamente trilavam o apito pra chamar a atenção, até que irritado, o Pacheco pediu pra eles pararem com essa “M...” porque " estava enchendo o saco". Curto e grosso, o Pacheco não era afeito a esses fru - fru - fru - e me disse que odiava cada vez que alguém acenava ou abanava com lenços a passagem do último trem.


Mas quem apitou pela última vez em Blumenau foi o Aníbal Rocha, já aposentado, em 1973, quando foi convocado para puxar as locomotivas para fora do pátio da Itoupava Seca para o procedimento do sucateamento, quando foi acesa novamente a 331 . Neste dia várias fotos foram feitas e o próprio Anibal Rocha mais afeito à fotos fez . Este último trem, que como já postei no grupo da EFSC não tinha nada de muito romântico. Nem em Blumenau não tinha muita gente na estação não. A maioria aplaudiu mesmo é a parada do trem que “enfeava " a glamorosa Blumenau de então e o trem era tido como o transporte da pobreza de então e como alguém escreveu num jornal de Brusque, que o trem servia mesmo só pros pobres que afinal tinham tempo pra andar de trem ou seja, eram pobres porque não gostavam de trabalhar.

Macuca
Imagem: Adalberto Day
Na década de 1990 a Macuca foi reformada e colocada na Praça ao lado da prefeitura de Blumenau desde 31 de agosto de 1991.

Arquivo de Adalberto Day/texto de Luiz Antônio Soares memorialista em Blumenau.

Para saber mais acesse:
http://adalbertoday.blogspot.com.br/2010/12/la-foi-o-trem.html
http://adalbertoday.blogspot.com.br/2009/05/o-centenario-da-estrada-de-ferro-santa.html
http://adalbertoday.blogspot.com.br/2010/12/praca-da-estacao.html

sexta-feira, 28 de março de 2014

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Sociedade - Quem perdeu e quem venceu no golpe militar de 64?

Por Luiz Flávio Gomes
Jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Estou no professorLFG.com.br

Depois de 50 anos, quem já se desencapsulou (quem já quebrou a casca do ovo para ver o mundo como ele é) sabe bem que quem perdeu, no golpe militar de 64, foram o comunismo, a esquerda, o presidente deposto João Goulart e seus seguidores, o seu governo (de setembro de 1961 a março de 1964), a FMP (Frente de Mobilização Popular), as reformas de base (agrária, escolar, financeira), a esperança dos sonhadores socialistas de um país melhor, os países alinhados com o socialismo mundial, o diálogo, a democracia (até a esquerda dizia que não dava para ter democracia com a barriga vazia), os salários dos trabalhadores (que foram arrochados), o poder aquisitivo do salário mínimo, a “república sindicalista”, o legalismo (Estado de direito), a falta de governamentalidade, os direitos políticos dos cassados, as vidas dos que morreram, a liberdade dos que foram exilados etc. Estes são os que perderam.

E quem venceu? No plano do aparente do aparente (o mais visível), venceram (no golpe militar de 64) o setor militar que queria a ditadura (que quis impedir a posse de Getúlio em 1950, a posse do Juscelino em 1955, a posse do João Goulart em 1961), a Marcha da Família com Deus para Liberdade (setor fundamentalista da Igreja católica), a conspiração da Direita (os conservadores), a solução autoritária dos problemas pátrios, a burguesia capitalista, a pequena burguesia conservadora de classe média, os EUA (que financiaram muita coisa, especialmente as marchas e o Ibad – Instituto Brasileiro de Ação Democrática), a doutrina da segurança nacional, a crise econômica de conjuntura, a inflação alta, a desorganização da economia, do abastecimento, o mercado negro etc.

Mas é no plano do oculto do aparente que conseguimos descobrir os que venceram de verdade: o capitalismo, que sempre foi o algoz do comunismo, sobretudo durante a Guerra Fria, os EUA (que ensinaram as técnicas de tortura para os militares brasileiros), os capitalistas da burguesia local bem como todos os que apoiaram essa elite, incluindo a grande imprensa (Globo, Estadão, Folha, Jornal do Brasil) etc. A grande guerra que estava por detrás do aparente do aparente não se travava entre Goulart e os militares fundamentalistas ou entre a esquerda e a direita locais, sim, entre a ameaça do comunismo (da União Soviética) e o capitalismo (dos EUA). Foi mais uma vitória deste último, que acabou derrotando (sobretudo depois da queda do muro de Berlim, em 1989) todos os “ismos” adversários: comunismo, socialismo, stalinismo etc.

Mas qual capitalismo venceu aqui no Brasil? O pior possível, o mais desqualificado e mascarado de todos, o mais primitivo e retrógrado, qual seja, o capitalismo selvagem, extrativista e patrimonialista, que não tem nada a ver com o capitalismo evoluído, distributivo e altamente civilizado, hoje praticado por Noruega, Suécia, Dinamarca, Canadá, Japão, Coreia do Sul, Holanda, Bélgica etc.

Aqui venceu o “milagre econômico”, que promoveu a concentração de renda, o enriquecimento de uma pequena elite burguesa (durante a ditadura nosso Gini – desigualdade -, já bastante desequilibrado, foi de 0,54 para 0,64), que se valeu do governo militar autoritário para parasitar o povo por meio de um neoescravagismo, fundado no arrocho dos salários dos trabalhadores e na redução do poder aquisitivo do salário mínimo (até hoje não recuperado).

Diziam que “o regime autoritário é bom por causa da racionalidade econômica”. Foi mesmo uma racionalidade em favor da concentração da renda nacional (reitere-se: do Gini 0,54 passamos para 0,64) e da quebradeira geral dos trabalhadores assalariados, do salário mínimo. Esse é o capitalismo brasileiro, patrimonialista, onde o governante confunde o patrimônio público com o patrimônio privado, favorecendo sempre a burguesia selvagem e extrativista, que se valeu da ditadura para aprofundar nosso apartheid social (processo de segregação de setores da sociedade), para endividar o país, gerar inflação (que é o gafanhoto dos salários), de quase 200% ao ano, corrupção abundante, analfabetismo, em suma, para quebrar o país mais uma vez, sem diminuir a riqueza da elite.

Foi assim que chegamos em 2014 como uma nação emergente fracassada: 16º país mais violento do mundo, com 27,1 assassinatos e 22 mortes no trânsito para cada 100 mil pessoas, com 16 das 50 cidades mais violentas do planeta, índice Gini de 0,51 (altíssima desigualdade), posição 85 no IDH (ridícula), renda per capita muito baixa (USD 11 mil), 8º país do mundo em analfabetismo, ¾ da população é analfabeta funcional, piores colocações nos rankings internacionais de educação (PISA etc.), falta de mão de obra qualificada, crescimento econômico raquítico (pibinho baixo), políticos corroídos pela corrupção, democracia puramente formal, estado patrimonialista, igualdade material utópica, sociedade incivil, justiça precária etc.
 

Imagens 1, 2, 3 e 4: Reprodução